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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A inspiração

Além de um rosto belíssimo, essa mulher, atriz do cinema mudo, tem uma história bem peculiar.

Dotada de uma beleza incomum, além de uma personalidade fortíssima e grande determinação de vontade, Louise foi uma atriz que viveu literalmente à frente de seu tempo. Consciente de seu poder de sedução, Louise não representava: na verdade ela dançava para a câmera, usando a expressividade natural de seu corpo e de seu rosto como instrumentos dramáticos.

Em sua época, a profissão de ator e atriz tinha uma conotação completamente diferente dos dias de hoje. Não havia todo esse "glamour". Dona de um temperamento explosivo, Louise Brooks não aceitava submissamente que seu trabalho fosse mal pago, muito menos que seu nome não aparecesse nos créditos dos filmes em que atuava o que era muito comum. A maioria dos atores e atrizes da época sequer discutia o assunto, pois só assim conseguiam ter trabalho. Louise não, e por isso incomodou muitos diretores e donos de estúdios de Hollywood.

Daí se explica o porquê de uma atriz tão bela ter sido relegada ao segundo plano... Quase desconhecida, ignorada durante tanto tempo...

COMO TUDO COMEÇOU

Mary Louise Brooks nasceu no Kansas, EUA, em 14 de novembro de 1906. Subiu ao palco pela primeira vez aos 4 anos de idade. Com 15 anos deixou a cidade em que nasceu rumo à Nova Iorque, juntando-se a uma Companhia de Dança - a "Denishaw Dance Company".

O SUCESSO

A dança projetou Louise... E em 1925 conseguiu uma posição de destaque no legendário grupo Ziegfield Follies, e daí para o primeiro papel em um filme foi um pulo: sua estréia foi em "The Street of Forgotten Men".

Vai então viver em Hollywood, com um contrato de 5 anos com a Paramount Pictures. Seu temperamento insatisfeito faz com que abandone o studio, em busca de melhores condições salariais na Alemanha, a convite do diretor G. W. Pabst, para estrelar a "Caixa de Pandora", considerado um clássico. Uma produção de 110 min. (disponível em DVD), onde Louise interpreta Lulu, uma mulher misteriosa, capaz de seduzir e destruir todos os homens que dela se aproximam... A versão que corre é de que este personagem teria sido inspirado na própria atriz, já que teve uma vida amorosa bastante tumultuada. Louise teve vários amantes, o mais famoso foi Charles Chaplin.

Depois, já de volta a Hollywood, com o advento do cinema sonoro, vários filmes daquela época, originalmente mudos, estava ganhando cenas adicionais... Louise não esquece os rancores com a Paramount e recusa um cachê de US$ 10.000 para dublar seu personagem no filme ainda não lançado "Canary Murder Case", que fora produzido sem som. Primeiramente Louise ignorou os convites frenéticos dos produtores, e finalmente recusou os dez mil dólares, ignorando a ameaça clássica: ou voltava, ou nunca mais trabalharia em Hollywood. A resposta de Louise foi igualmente clássica:

"E quem quer trabalhar em Hollywood?"

Como represália, os produtores furiosos espalharam o boato de que a voz de Louise era horrível e por isso não poderia fazer a dublagem do filme. O fato teve uma repercussão muito negativa na carreira da atriz, já que o cinema sonoro tomava conta do mercado. Como resultado disso, ela foi literalmente "engavetada"...

Esquecida pelos produtores de Hollywood e pelo público, sem planos e sem emprego, volta a Nova Iorque, para a companhia de seus amigos e amantes. E o que restava do dinheiro ganho em Caixa de Pandora foi facilmente gasto, e ela se endividava cada vez mais. Após algumas tentativas frustradas de atuar em Paris (Prix de Beauté) e na Alemanha (Diário de uma Garota Perdida), mais uma vez o destino lhe oferece uma oportunidade de dar a volta por cima: foi-lhe oferecido um papel feminino num filme policial que lançaria um ator ainda desconhecido (James Cagney; o filme, Inimigo Público). Caprichosamente Louise recusou o papel no filme que projetou Cagney e Jean Harlow, que ficou com o papel que seria dela.

E assim sua vida projetou-se numa espiral decadente. Aos cinquenta anos era uma sombra de si mesma, muito envelhecida, amargurada, isolada, alcoólatra, vivendo frugalmente de uma ajuda mensal de uma instituição filantrópica mantida por um de seus ex-amantes.

NOVOS PAPÉIS: OBJETO DE CULTO E ESCRITORA

James Card, curador do Museu Internacional de Fotografia da George Eastman House, numa viagem que fez a França com o objetivo de preservar e restaurar filmes antigos, principalmente os filmes mudos, ficou enfeitiçado com Louise ao assistir Caixa de Pandora, juntamente com Langlois, fundador e diretor da Cinémathèque Française.

Numa grande mostra sobre os "Sessenta Anos do Cinema", Langlois exibiu na entrada da exposição dois enormes painéis fotográficos: Falconetti, em "La Passion de Jeanne d'Arc" e Louise Brooks em "Pandora". Questionado sobre a escolha de Louise, e não de estrelas mais famosas como Greta Garbo ou Marlene Dietrich, Langlois proferiu a declaração bombástica que seria o grito de guerra da "redescoberta" de Louise:

"Não existe Garbo.

Não existe Dietrich.

Existe apenas Louise Brooks."

De volta aos Estados Unidos, Card tentou aproximar-se de Louise, mesmo sabendo sobre o estado em que a atriz se encontrava. Inicialmente Louise recusou-se a recebê-lo, mas a insistência de Card culminou com o início entre eles de uma profunda - e tempestuosa- amizade, que viria a se transformar no último romance da vida de Louise. Como uma fênix, Louise "renasce" ao lado de Card...

Em Paris, Langlois, organizou uma retrospectiva de seus filmes e Louise concordou em estar presente. Foi aclamada pela imprensa, e se viu cercada de fãs que brigavam por um autógrafo. Estava, assim, lançado o culto a Louise Brooks na Europa...

Enquanto procurava se aproximar de Louise, Card e ela trocaram uma vasta correspondência. Impressionado pela qualidade de suas cartas, sugeriu que Louise escrevesse suas memórias.


Em 1948 começa a escrever sua biografia, que ela mesma destrói ao terminar, seis anos após. Frustrada, ela justificaria dizendo:

"Ao Escrever a história de uma vida acho que o leitor não pode entender a personalidade e os feitos de uma pessoa, a menos que sejam explicados os amores, ódios, e conflitos sexuais dessa pessoa. Não estou disposta a escrever a verdade sexual que tornaria minha vida digna de ser lida.".

Um segundo texto foi esboçado, e nunca completado. Apesar disso, daí para frente dedica-se quase que exclusivamente à literatura, sendo que seu livro Lulu in Hollywood torna-se um Best-seller: o culto chegava, assim, aos Estados Unidos.

Louise e seu "look" Brooksie estava de novo na mídia.

Todo o sucesso provocado pelo renascimento de Louise, ao mesmo tempo em que lhe agradava também a assustava. Com o fim de seu relacionamento com Card, voltou a vida de reclusão. Sua saúde encontrava-se precária. Além do alcoolismo, sofria de artrite e de um avançado enfisema. Mary Louise Brooks morreu em Rochester, em 8 de agosto de 1985, de ataque cardíaco, aos setenta e oito anos.

Louise Brooks não perdeu seu antigo poder de sedução enfeitiçante. Renasce, misteriosamente, tanto tempo depois, num misto de magia e fascínio, recebendo o merecido crédito não apenas por sua carreira, mas por sua coragem em ter sido a primeira mulher a desafiar os tubarões de Hollywood.


Suas fotografias têm um poder de atração até sobre as pessoas que nem sequer imaginam quem ela foi, chegando a beirar a histeria: um fã diz ter encontrado uma foto daquela desconhecida em uma loja de antiguidades e teve compulsão de comprar aquela em particular, em meio a tantas outras, e tentar descobrir de quem se tratava. Outro diz que cresceu envolto no mistério e no fascínio de uma fotografia que seu pai tinha na parede da sala, e que, depois de adulto, procurou descobrir quem era... Sua presença é mesmo iluminadora...

Foi uma vida repleta de altos e baixos. Seus erros e seus acertos fazem parte de sua história pessoal. Seus filmes que atualmente estão sendo restaurados e lançados em DVD, com o objetivo de preservar e exaltar a sua arte surpreende-nos pelo fato de como uma atriz do cinema mudo do início do século passado tem o poder de renascer e se popularizar a cada dia, a ponto de competir com personagens atuais.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Lou Salomé

Louise Salomé nasceu em São Petersburgo, Rússia, Lou uma prática de paixão; alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até uma idade avançada, o nascimento da paixão nos homens que encontrou em seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto.

Um dos seus primeiros escritos data de sua ligação com poeta Rilke. Intitulado Reflexões Sobre o Problema do Amor, traz as evidentes marcas da embriaguez física e espiritual que sua autora estava vivendo em sua relação com Rilke.
Para Lou ato amoroso transforma o parceiro num "conto estranho e maravilhoso".

A Paixão amorosa é uma porta, diferente de todas as outras portas, "em sua arquitetura ornada de elementos ricos de sentido, em virtude de um simbolismo singular". É o caminho por excelência que nos leva a nós mesmos. Por ela "nós não somos um mundo de realidade, somos apenas o espaço e o metteur en scène de um mundo onírico, todo-poderoso, irresistível".


Assim, o amor durará enquanto os amantes forem capazes de oferecer ao outro essa entrega, que dá acesso de modo vital à capacidade de se concentrar neles mesmos, de ser um mundo para si por causa do outro.Neste mesmo ensaio, ela nos lembra que no êxtase amoroso, por mais que desejemos nossa fusão com o amado, sempre somos, em última análise, remetidos a nós mesmos.

A reconciliação que se fará aqui será sobretudo entre o sujeito e ele próprio, através do outro, mais do que entre o sujeito e o objeto amado.Num ensaio sobre o Erotismo, datado de 1910 quando Lou já se engajara definitivamente à psicanálise, intitulado Anal e Sexual, ela nos lembra que na união física "a gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais (...) completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva".

Para Lou o amor não seria um encontro, mas uma busca. Não quer dizer que chegamos, mas que estamos próximos. Lou Salomé viveu todas as fases e evoluções do amor, da entrega à recusa, da expansão à contração.Durante muitos anos ela teve o destino das mulheres brilhantes ligadas a homens brilhantes: era conhecida apenas como amiga de Nietzsche, Rilke, Freud, etc.Durante a vida de Salomé (1861-1937), ela presenciou o fim da tradição romântica e se tornou parte da evolução do pensamento moderno, que frutificou no século XX. Salomé foi a primeira ‘mulher moderna’.


Lou escreveu vários ensaios sobre o Erotismo: Anal e Sexual;
Reflexões sobre o problema do amor;Cadernos íntimos dos últimos anos;A velhice e a eternidade, entre outros
Copiou dos homens o modo de vida, mas não foi uma mulher masculina. Exigiu a liberdade de mudar, evoluir, crescer. Afirmou sua integridade contra o sentimentalismo e as definições hipócritas da fidelidade e do dever.

Ela é excepcional na história de sua época. Não foi uma feminista, de modo algum, mas lutou contra o seu lado feminino para manter a integridade como indivíduo.

Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca.

Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento , tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro..."


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Nasce Hilda Hilst em Jaú no dia 21 de abril, 1930

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.


Flor Bela de Alma da Conceição Espanca - suicida-se no dia do seu aniversário, 8 de Dezembro de 1930.


Ontem, dia 8 de Dezembro, assinalou-se o aniversário do nascimento (1884) e da morte (1930) da senhora que dorme na minha mesa de cabeceira há já vários anos: Florbela Espanca.

Foi uma mulher à frente do seu tempo, com uma história de vida atribulada e sofrida. Mas de uma sensibilidade e de uma paixão imensa, que transpira em tudo o que escreve. E quem melhor que ela para se definir a si própria?

Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas de um raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser um D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dar de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa! Toda, enfim, nesta frase a propósito de Delteil: "Trés simple avec son enthousiasme à sa droite et son désespoir à sa gauche."

(Carta a Guido Battelli, 27 de Julho de 1930)